"Que apesar dos pesares conserva o bom-humor, caça nuvens nos ares, crê no bem e no amor."
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ao amor de Setembro


Ah! que saudades que tenho
Da inocência da minha adolescência
Ah! se soubesse que o tempo não pára 
Que a melhor idade ficou lá atrás!
Quanta doçura, ternura, tudo florescia...
Lembro-me dos finais de tarde,
que saía ao portão só pra te ver passar
Naquelas tardes os anjos do céu entoavam
as mais sublimes melodias... 
Meu corpo estremecia, minha face ruborescia ...
Quando você passava,  era como um furacão me arrancando o chão...
Seu olhar brejeiro de moreno faceiro, aquele sorriso meio de canto,eram como anzóis, içando sem dó meu coração
Minha alma transpirava uma alucinação desconhecida
ainda que respirasse inocência... 
-Até um belo dia, jamais esquecido...
-Era numa manhã de Setembro, fiquei a lhe espreitar pela fresta da janela
-De longe meu coração lhe avistou, pulando quase de salto pela boca
-Corri para o portão, com a chave na mão,  fingindo não lhe ver
-Você com aquela voz que causava turbilhões no meu estômago
-Sorriu, e perguntou: Onde minha namoradinha está indo?
-E, eu quase sem voz, toda sem graça, com as pernas cambaliantes
lhe respondi gaguejando com meio sorriso: Vou comprar pão e leite, e você?
-Mas, é claro que eu já sabia! ...pensava comigo: Hoje quero ao menos despretensiosamente tocar em sua pele.
-E ele, respondia com um sorriso que, quase não o ouvia; por estar em transe: É mesmo, meu amor?! ... então vamos juntos! -respondeu colocando o braço em volta dos meus ombros. Meu Deus! Pensei comigo: Será que vou morrer, ou desmaiar? ...por favor não deixe que isto aconteça, e, se acontecer, permita que seja depois do meu primeiro beijo. -Acho que esta foi a oração mais pura, e cheia de fé que já fiz na vida. 
-A padaria era bem perto de casa, mas, aquele dia foram quilômetros de distância. 
-Meu corpo, minhas pernas tremiam sem parar, minhas mãos transpiravam sensações de primeiro amor. O que era aquilo? 
-Meu coração disparado, multi sensações, líquidos em ebulição, o sangue em minhas veias ferviam em todo meu corpo. -Ele parecia tranquilo, falava coisas que não entendia, apenas balançava a cabeça com sinal positivo.
-Em cada sorriso, e olhar eram como fechas lançadas diretamente ao meu coração... 
-Se doía? Sim! mas, era a dor mais gostosa de se sentir. 
-Só estava com medo, de viciar-me! -Mas, isto não importava... a unica coisa que pensava era: -Será que ele irá me beijar? Era como uma goteira, a todo instante, atormentando, buscando resposta, a todo instante... -Ele não parava de falar, e a lançar aquelas setas entorpecentes, que me atravessavam sem nenhuma piedade. -Eu nem percebi que já estava-mos na fila dos pães... -Fiquei vermelha de vergonha, quando ele soltou uma gargalhada, dizendo: -Ei? menina linda, acorda! ...é sua vez de pedir os pães.-Todos ao redor, me olharam com espanto, e pressa... -Balbuciei meu pedido ao balconista: Quero dez pães, e um litro de leite b! -E, ele me fitava dos pés a cabeça, com um olhar que sentia percorrer todo meu corpo.  -Sem graça, eu lhe perguntava: O que foi? E ele, respondia passando a mão em meus cabelos longos e negros: Não é nada não, meu amor; só estou observando de perto, o quanto você é linda! -E, em seguida pegou minha mão, e disse: Como suas mãos são macias; você está tremendo?!... e soltou uma risadinha tão sapeca, que pensei: pronto, agora eu morro mesmo! -E,mais uma vez... me desperto com o tom de voz áspero do balconista que, praticamente grita: Garota, vai querer o pão, ou não?! -Balancei a cabeça que sim, mas, eu mesma não estava ali... só conseguia ouvir a goteira que ficara mais insistente com a pergunta: Será que ele vai te beijar? Será, será, será...? E ia intercalando com uma afirmação: Você não sabe beijar, não sabe, não sabe...! 
-Eu não imaginava que a volta pra casa naquele dia, marcaria por toda a minha vida. 
-Durante o caminho, ele me olhou com doçura, e olhar brilhante, oferecendo sua mão. 
-Mais que depressa aceitei aquela mão forte, firme, linda, segurar a minha... 
-E voltamos como namoradinhos, nossas mãos coladas... a minha tremia, e transpirava... 
-Não falamos uma palavra, parecia que todos os sons se resumiam em nossas ofegantes respiração. 
-Quando faltava três casas da minha, ele me puxou pela mão, levando-me para debaixo de uma pequena cobertura de uma casa de gente rica ali do bairro; uma espécie de abrigo para facilitar a medição do relógio de energia da casa. 
-Eu não disse uma palavra, apenas confiava nele. Gentilmente, ele pegou o leite e os pães, colocando-os com cuidado em cima da caixa do relógio... 
-Acomodou-se naquela parede, puxou-me com doçura pra junto do seu corpo, levando as mãos em volta da minha cintura... 
-Foi o abraço mais gostoso e demorado que já recebi! -Ficamos ali, abraçados, sem palavras, apenas nossa respiração, nossos cheiros se misturando. 
-Ele acariciava meus cabelos, meu rosto, minha boca, como se estivesse desenhando cada traço... 
-Me olhava com um olhar penetrante; que lançava chamas, simplesmente consumindo-me... 
-Naquele momento, eu era uma floresta em chamas, e o fogo era avassalador... não poupava nada! -Meu coração já havia derretido... 
-E aquela goteira já não atormentava mais os pensamentos, estava lenta, quase escassa... -Meus lábios ardiam em brasas, sedentos, quase que clamavam pela água daqueles beijos, meu primeiro beijo. 
Ah! que saudades de um tempo que não volta mais...
E hoje é Setembro
E você, não está aqui
Se te reencontrasse
viveria tudo outra vez, só que com muito mais
intensidade.




Lene Soares

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Solitude, lucidez ...

Haviam muitos caminhos pra seguir...
poderíamos ter ido daqui pro mundo inteiro
sem rotas, sem protocolos , sem mandamentos
qual foi o impedimento de mergulharmos fundo?
 encontraria meu olhar dentro do teu 
juntos enxergaríamos no mais profundo escuro
teu suspiro teria descanso no meu
tua fome de olhar guloso saciado 
pela sede do meu olhar sedento
bastava-me um aceno, uma palavra
para que eu fosse contigo e tu viesses comigo
 viveríamos um no outro...
morada, pouso
repouso, gozo
comunhão...
s o l i t u d e
______________
_ mas...
sonhos e fantasias não criam asas
em vão seria nosso encanto 
olhares famintos e bocas secas 
clamam pela água compartilhada 
ficaram só as paredes
divisoras de vales dos medos
não passam de montanhas solitárias
pedras de palavras mudas
caminhos não percorridos
desejos e beijos dispersos ao vento
angústias sentidas no peito
são gritos no silêncio
clamor de um coração... 
l u c i d e z
______________
_  mas...
 o amor flui
é remo de barco
é água que corre
que escorre e preenche
feito cachoeira
é intuição acertada à paz
é gira mundo
movimento
o amor é pássaro livre
se for pra pousar
ele acha ninho
a n i n h a - s e
______________
_ mas...
se diferem os mundos no fuso
um gira e o outro estagna
é areia movediça 
atola os pés, paralisa
arrebenta a corda
ao invés de laços, nós enviesados
fios embaraçados...
água parada é poça d' água evaporando...
distintos, contrários, distantes
não há ninho
pouso de ilusões
é coração 
d e s a l i n h a do
______________
_ mas...
não era amor...
pois, nos ares incertos do teu relógio
a minha vida pulsa, pulsa, pulsa, pulsa
p u l s a...
Lene Soares

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cais do porto


Vou embora desta cidade
antes que seja tarde...
eu vou, e não volto  mais...
vou até o cais 
antes que anoiteça,
e eu me esqueça de como é o horizonte
eu vou ao porto com gosto 
vou sem hora, sem demora
aventurar-me em outros mares 
aqui não posso mais ficar
no ansiar por novos ares 
vou sem rumo, sem rota
sem medo de derrota
procurar a outra parte
que não é minha metade
e sim, complemento de mim...
não sei quanto tempo navegarei 
e nem onde encontrarei
se no começo, meio ou fim...
complemento de mim...
Lene Soares

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Palavras ao vento

Quase sempre te escrevo...
mas ando com o coração
desanimado...
as palavras que te entrego
parecem que adormecem
no espaço, e no tempo...
preciso de um vento
forte que as impulsione, 
e as façam chegar até você...
talvez algumas cheguem 
na calada da noite,
e beijem teus lábios com
doçura e despertar...
e, outras te abracem 
com o calor do amor que 
mora no meu peito...
o cansaço bate a porta,
e você não chega...
minhas palavras não te tocam,
 já nem sei se existes...
meus sonhos viajam todos 
os dias no seu universo...
e você, sem forma e sem nome, existes
no silêncio, obscuro, disperso, distante...
teu corpo, teu rosto, teu nome, teu cheiro,
teu coração, tua existência...
tudo!  - o espaço me consome...
e eu, só conheço essa tua ausência...
sei que hoje me encontrei com o luar,
que ouviu o silêncio de nós dois...
e a estrela que lê meus pensamentos estava
lá, num céu aberto e lindo...
céu, estrela, luar
e eu, a pensar em ti...
meu coração ainda diz,
que em  breve estarei no teu olhar...
que a força do meu amor te tocará...
que você ficará de mãos dadas com o meu sorriso...
te espero meu amor!
Lene Soares

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Hoje

 
Hoje, exatamente hoje, 
eu queria apenas um abraço
Não fale nada, 
apenas me olhe nos olhos e sinta...
Deixe que a sensibilidade os leiam com ternura
Deixe que eu chore em seu peito, 
como a um filho sendo mimado
Deixe que eu sinta o afago em meus cabelos,
como a um pai mimando a seu  filho
Hoje exatamente hoje,
meus olhos sussurram...
Apenas me abrace
Já posso sentir tal ternura...
Apenas me abrace
Não exijas nada, 
eu também não quero nada
Apenas me abrace
Lene Soares

domingo, 30 de maio de 2010

Borboleta Cintilante



Sou assim, 
livre... 
uma borboleta cintilante
Com esses tons de calmaria de quem vem de longe
e de uma dolorosa metamorfose...
Sou assim, 
leve e viva...
Tenho pressa, e esta, se chama pressa de viver 
...de sentir toda liberdade concedida
Assim, cheia de graça...
Pairando  calmamente entre flores de puro carmim
Lene Soares

Chove lá fora


Chove lá fora 
e da vidraça vejo um pássaro solitário
Tão frágil me pareceu... 
De penugem delicada com tons de azul
Respingos d'água caiam sem piedade
Fui ficando triste a pensar
Pobre passarinho a penar
Quando num momento mágico
Se pôs a cantar
E ao seu lado 
Outros pássaros a pousar
Tudo em par
Lado a lado 
Um a um
Pobre de mim
Lene Soares

Fragmentos de mim


Sou assim, muitas vezes fragmentos de mim... 
Mas em todos sou luz; a luz que vem do justo Sol
Não me importo em ser piegas, sou menina e sou mulher... 
Que pensa ser indefesa
 sou é forte! 
Incurável romantismo tenho em mim
Sonhadora eu sou, num imenso misto de  
emoções, mistérios e fantasias...
Sou amante da poesia, borboletas, 
céu, estrelas, olhar o mar, pôr do sol, 
brisa de outono e cheiro de chuva
Sou o sossego que desasossega quem não compreende 
Sou profunda na oriunda subversão para o bem 
Sou difusa na profusa calmaria em meio às tempestades 
As vezes sou barco à deriva...
E meu olhar ao léu é contemplativo da beleza da criação
Olho tudo, vejo tudo, sinto tudo... 
Tento ser mais gente, e passei a andar só com gente... 
Sou intensa sim, mas, não vivi nada ainda...
Sou uma rara flor em pleno sertão, caminhando na contramão... 
E com graça vou resistindo às adversidades 
Nas pétalas do meu coração contém orvalho de 
amor, paz e bondade...
Nestes fragmentos de luz recomeço...
Não serei mais a flor, agora sou Beija-flor.
Lene Soares

Transpassou



...Vou amar as pessoas independente de religiões, cor ou escolhas, o amor ultrapassa, transpassa o entendimento.. quero ser definitivamente alguém que segue e procura imitar aquele que como andarilho na terra somente amou. Andou, sentou, comeu, sorriu, chorou, compartilhou com gente simples, normal, que peca, chora e sente dor... gente sem ganância, arrogância, orgulho, mediocridade... quero ser caminhante neste amor; se Ele é o amor e, o amor esta em mim, é compartilhar sem cobrar o que já foi pago. O andarilho do amor que até o último suspiro, amou, e no desconhecido pecador provou , hoje mesmo estarás comigo no paraíso, e o amor transpassou! 
Lene Soares

A beleza da Alma

Me apaixono por almas 
pela  beleza que vem de dentro
de gente com sensibilidade a flor da pele
que transcende, reconhece, identifica
ainda que cala, fala, exala
não força, sente, entende
são gêmeas, acompanha 

ainda que longe
admira, quer bem
aplaude, torce, intercede
levanta, canta, encanta
em sintonia, sinergia
abraça, acalma

e sente a alma da gente
Lene Soares

Chuva




Traga  frescor e lucidez ao meu coração
traga também o amor e a paixão
que o vento me arrepie
que as horas não passem
que a chuva me inunde e transborde
me faça tremer de emoção
e que depois o sol me bata a porta
com sua sedução
trazendo luz e compreensão
mas traga também a razão de me entregar
toda a esta paixão


Lene Soares

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Aquela lua...


Lua cheia
noite meio fria
caminho a beira mar
contemplando ondas
no seu insaciável  ir e vir...
a nostalgia se apresenta
em meio a calmaria do 
som envolto por espumas 
brancas... 
me levam ao encontro 
de uma imensa saudade que 
impõe sua presença...
mergulho na imensidão 
da minha alma buscando 
sensações dos sonhos a viver...
converso com meu coração
que insiste em falar de você
as palavras são sempre de  
paz e esperança...
amor, paixão e tesão...
desejos, calor e vida...
me diz que você não é só um sonho...
que nossa música existe, que a poesia 
nos espera junto ao vinho, violão e beijos
me diz que aplaudiremos o pôr do sol e dançaremos ao luar...
diz que a canção que você fez pra mim soará até o raiar do dia...
começo a imaginar meu olhar, e, 
o teu olhar a me acariciar...
seu cheiro misturado ao meu,
faz dos pensamentos uma viagem tão real...
continuo imaginando o toque 
de suas mãos, do teus beijos molhados com gosto de amor e sal
sinto o vento gelado tocar em meu rosto...
procuro me recompor, mando os pensamentos embora...
Volto a ouvir a voz deste coração que só sabe falar de amor...
E, mais uma vez renasce, pulsa, bate, explode forte em  mim
o que parecia fim...
...desperto, sigo em frente e digo sim!
Vale recomeçar só pra te encontrar..
Lene Soares 

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Aprendiz

Ando segurando os ponteiros do tempo
caminhando a favor do vento 
redescobrindo sabores do viver
conjugando o velho e bom verbo amar
sentindo vontade de voar...
ando tecendo palavras entre estrelas e luar
 fiando versos de aprendiz um a um
tentando poesia  bordar
brincando com as letras tentando rimar 
e talvez no fim poderem se ajuntar
pego papel e caneta que são sempre fiéis
me fazem companhia por noites frias
caneta e papel nunca hão de se cansar...
queria ser como os poetas ter rimas e métricas
carregar mil versos e encantar
pobre de mim sou apenas aprendiz
vivo, caminho e sonho
querendo com isso corações alcançar
 aprendiz apenas, mas tenho pretensão...
quero lugar pra chegar no teu peito
com amor e respeito...
não quero alcançar perfeição...
escrevo e assino, aprendiz de poeta então...
caminho vivendo e aprendendo e assim vou escrevendo...
mostrando pro mundo 
tecendo de tudo que
não cabe em mim...
jorrando delírios e coisas do amor...
transbordando de dentro do coração também aprendiz!
Lene Soares