"Que apesar dos pesares conserva o bom-humor, caça nuvens nos ares, crê no bem e no amor."
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Encontro de poemas

Juntos formaram uma bela poesia
Ali exprimidos no curto espaço de tempo
Encarando selva de pedras, corajosos e destemidos
Enganavam as horas sem muitas palavras, apenas sentimentos
Atravessaram a cidade em meio às sombras das montanhas
Montanhas de pedras, que se perdiam quase no além dos olhos
O silêncio era um barulho pontuado de gente, de carros e buzinas
No peito carregavam uma quietude inflamada de desejos
Gestos de carinhos concentrados em lembranças de páginas carmim
donde escorriam poemas em êxtases
E ali, nos corredores da selva, bem na curva, leves como a pluma
Em sintonia, sorriram feito vôo de pássaros livres
E pousaram 
E pausaram
E tudo se transformou em mistério e medo
Medo de ir e ficar perpetuamente em torno de si...
Ficaram as lembranças de beijos úmidos, abraçados a poemas em êxtases...
Num jeito bom de acolher, de ninar, e de guardar eternamente na memória.
Lene Soares

segunda-feira, 28 de março de 2011

Som do Vento





Sim! Eu conheço o som 
do vento que me acompanha
Reconheço-o principalmente 
nos silêncios das noites mal dormidas
Como um Prélude de Bach
ecoa em meus pensamentos 
Acalma meus sonhos
lava minha alma 
Sinto-me leve outra vez 
Como areia lavada pelo beijo 
de espumas brancas do mar
Sinto minha face beijada pelo som do vento. 

Lene Soares

Teus olhos


Teus olhos fixos em mim
transparentes, apesar de negros
Vejo vidas...
A minha
A sua
A nossa...
Memórias expostas
de um passado presente,
e de um futuro distante...
Desejos engolidos pelo tempo
lutando, tentando quebrar 
a névoa das amarras... 
Gritos sufocados seguram 
minhas mãos e segredam palavras... 
Me vejo no profundo deste olhar
Sensações envolvem e despertam o amor que há mim...
É a primeira vez que vejo olhares que se beijam, 
e ardem entrelaçados num só...
Na transparência dos teus olhos
vejo minha resposta... 
Sim amor, quero teus olhos fixos... eternos em mim! 

Lene Soares

Devolva-me!



Ando procurando me encontrar
Por onde andei? Pois, em algum momento me perdi...
Onde andas pedaço de mim?
Se tu souberes, devolva-me agora!
Não me escondas em silêncio e clausura
Silencias teus quereres
Os meus não!
Onde anda minhas pressas, sonhos e festas?
Como saber onde estás

Se nesta espera do encontro
Nada se encontra faltando um pedaço de mim.
Lene Soares

quarta-feira, 9 de março de 2011

Senhora Poesia


Vivo porque a poesia vive em mim
E seus versos me abraçam logo pela manhã
Tudo ao meu redor transpira poesia
Reflexos do dia entram alegres pela janela do meu quarto
E beijam minha face com doçura
Depois, correm pela casa como crianças em dias festivos
Tudo fica iluminado
- passarinhos gorjeiam em um coro afinado, alegre
- enquanto que borboletas dançam ao som do jazz de cada dia
- todos dançam, na verdade!
A cantoria nunca cessa 
Apenas ao anoitecer, adormecemos todos embalados pelo blues
- um poético amigo do jazz, que já faz parte da família
A poesia é senhora dos meus dias
E seus versos, hão sempre de gotejar em mim
Feito chuva fresca em terra árida, formando desenhos  
iguais aos acordes de uma linda canção.
Lene Soares

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O lamento

Já não te vejo bem... Você existe?
Dizem que existe, aí, em algum lugar...
Será que devo alimentar mais um sonho que um outro se desfez?!
Vultos? Ventos? Pôr do sol? Mar? Estrelas? 
Será que vem? Será que vejo? Será que sinto?
-Não sei se me vês assim também, amor... Agarrada à uma tal esperança...
-Cego está quem? Eu ou você?
Será um fantasma de amor que vive assombrando este pobre coração?
Estarei condenada à solidão?
-Não sei, amor! 
Tem dias que és tudo que mais quero... 
Em outros, tão cansada, és um simples nada! Chego a odiá-lo!
És o vulto da esperança que passa nos dias que já são breves e beija a minha boca...
Mas há dias que adormeces em meu peito como pedra, e, me amarga a boca como fel... 
Em outros, estás tão vivo que me arde em tudo como brasas...e a boca quase que escorre em mel...
És aquele que vive e que morre em mim sem nenhuma piedade...
Sou a mulher e a viúva daquele que nem sequer conheceu
Hoje é daqueles dias que me aperta o peito como pedra...
Ai meu Deus! Que tormento este meu lamento...
Lene Soares

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Memórias

Na minha memória, e no meu coração tão cheio de sustos e marés
você ocupa o lugar mais bonito.Todas às manhãs, teu perfume me traz um gosto de vida pelas veredas deste meu jardim. E de repente, no caminho, entre alguma curva do crepúsculo, eu possa me encontrar. E assim, te reencontre... por caminhos enveredados de pétalas que se aninham em um leito de puro orvalho de amor.
Lene Soares

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Céu Azul


Vejo-te no azul do céu...
olhando nuvens leves e brancas que me enchem de esperanças...
_ o meu amor é a  perfeição que Deus criou para me embalar! 

clamo por teus braços fortes num lençol do quarto solitário,
que me observa nessas horas cálidas de todas às manhãs...
mas, num dia, me verá toda tua por testemunha!

sigo a rotina ainda em sonhos...
fecho os olhos imaginando o inusitado que diviso pelas ruas...
_ o cruzar dos teus passos com os meus...

_ o encontro que trará calmaria à fome da minha sede...
       minha boca têm a fome da tua
       meus olhos têm a sede dos teus
 
minhas mãos anseiam o toque das tuas
carne da tua carne quer ser uma só com a tua
sombra agarrada à tua sombra, doce e calma...
_ sou a quimera da tua alma, meu amor!
e, sem viver, ando sonhando viver contigo...
deixa-me andar lado à lado por teus caminhos...
_ por toda a vida, amor meu! 

bem devagarinho, sem pressa...
em passos leves...

amando, sonhando, vivendo... 
_ como se fôssemos um par de nuvens brancas
enfeitando o céu azul de todas às manhãs
Lene Soares

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Arpoador

Escrevi esses versos andando por sonhos
de um tal Arpoador que não conheço... 
que não se mostra, que não se desnuda
procuro tocá-lo, mas não alcanço...
vejo um pôr do sol no final 
reflexos de luz divina 
sigo como sinal...
o caminho é incerto, a areia é  morna
as ondas são de ilusões 
o mar está imóvel, o tempo estático
eu, o andarilho, no caminho desconhecido...
pensamentos que diferem, a montanha é dura
brisa no rosto, mas, areia nos olhos
ouço o som, batidas do coração
um martelar, sim ou não?!
o sinal me é nítido, farol que fala
tudo é miragem, fantasia de verão
sonhos de arpoa(dor), des(ilusão)
ouço sussurrar o vento
prosseguir...
inspirar
respirar paz...
encerrar ciclos
mergulhar na vida
sorrir realidades
abraçar verdades
caminhar no chão
do bem e do amor...
Lene Soares

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sobre amor e paixão


A paixão é a chama que alimenta o fogo do amor...
Não acredito quando dizem que paixão é fogo de palha
Paixão aquece e alimenta o amor, não importa a idade...
Seria bom que se fosse preservado ao menos um faísca acesa...
Sem paixão tudo é monótono, comum...
É um aviso constante de perigo,
um alerta à rotina e ao  tédio...
A paixão  impulsiona o amor para o ápice,
quando se  está em estado de conformidade...
Mas é preciso cuidado na dosagem...
Não se vive só de amor ou só de paixão...
Se caminham distintos, também não prevalecem na essência...
Amor e paixão se respeitam...
É preciso deixá-los respirar, em dias de solitude...
Amor e paixão são livres, por isto  se completam
e caminham juntos.
A paixão pode até ser confundida com amor,
de tanto que um anda misturado no outro
Dizem que o amor é  duradouro e
que a paixão é  intensa...
Que paixão é sombra passageira e
que o amor é porto seguro
O que sentimos, amor ou paixão?
O amor dá  carinho, colo, cafuné...
cumplicidade, estabilidade, companhia...
A paixão dá o impulso, a tensão, o desejo,
a química, a pele, o cheiro, o mistério...
Amor sem paixão é amizade,
paixão sem amor é atração...
Eu prefiro andar de mãos dadas com os dois!
Lene Soares

Ao amor de Setembro


Ah! que saudades que tenho
Da inocência da minha adolescência
Ah! se soubesse que o tempo não pára 
Que a melhor idade ficou lá atrás!
Quanta doçura, ternura, tudo florescia...
Lembro-me dos finais de tarde,
que saía ao portão só pra te ver passar
Naquelas tardes os anjos do céu entoavam
as mais sublimes melodias... 
Meu corpo estremecia, minha face ruborescia ...
Quando você passava,  era como um furacão me arrancando o chão...
Seu olhar brejeiro de moreno faceiro, aquele sorriso meio de canto,eram como anzóis, içando sem dó meu coração
Minha alma transpirava uma alucinação desconhecida
ainda que respirasse inocência... 
-Até um belo dia, jamais esquecido...
-Era numa manhã de Setembro, fiquei a lhe espreitar pela fresta da janela
-De longe meu coração lhe avistou, pulando quase de salto pela boca
-Corri para o portão, com a chave na mão,  fingindo não lhe ver
-Você com aquela voz que causava turbilhões no meu estômago
-Sorriu, e perguntou: Onde minha namoradinha está indo?
-E, eu quase sem voz, toda sem graça, com as pernas cambaliantes
lhe respondi gaguejando com meio sorriso: Vou comprar pão e leite, e você?
-Mas, é claro que eu já sabia! ...pensava comigo: Hoje quero ao menos despretensiosamente tocar em sua pele.
-E ele, respondia com um sorriso que, quase não o ouvia; por estar em transe: É mesmo, meu amor?! ... então vamos juntos! -respondeu colocando o braço em volta dos meus ombros. Meu Deus! Pensei comigo: Será que vou morrer, ou desmaiar? ...por favor não deixe que isto aconteça, e, se acontecer, permita que seja depois do meu primeiro beijo. -Acho que esta foi a oração mais pura, e cheia de fé que já fiz na vida. 
-A padaria era bem perto de casa, mas, aquele dia foram quilômetros de distância. 
-Meu corpo, minhas pernas tremiam sem parar, minhas mãos transpiravam sensações de primeiro amor. O que era aquilo? 
-Meu coração disparado, multi sensações, líquidos em ebulição, o sangue em minhas veias ferviam em todo meu corpo. -Ele parecia tranquilo, falava coisas que não entendia, apenas balançava a cabeça com sinal positivo.
-Em cada sorriso, e olhar eram como fechas lançadas diretamente ao meu coração... 
-Se doía? Sim! mas, era a dor mais gostosa de se sentir. 
-Só estava com medo, de viciar-me! -Mas, isto não importava... a unica coisa que pensava era: -Será que ele irá me beijar? Era como uma goteira, a todo instante, atormentando, buscando resposta, a todo instante... -Ele não parava de falar, e a lançar aquelas setas entorpecentes, que me atravessavam sem nenhuma piedade. -Eu nem percebi que já estava-mos na fila dos pães... -Fiquei vermelha de vergonha, quando ele soltou uma gargalhada, dizendo: -Ei? menina linda, acorda! ...é sua vez de pedir os pães.-Todos ao redor, me olharam com espanto, e pressa... -Balbuciei meu pedido ao balconista: Quero dez pães, e um litro de leite b! -E, ele me fitava dos pés a cabeça, com um olhar que sentia percorrer todo meu corpo.  -Sem graça, eu lhe perguntava: O que foi? E ele, respondia passando a mão em meus cabelos longos e negros: Não é nada não, meu amor; só estou observando de perto, o quanto você é linda! -E, em seguida pegou minha mão, e disse: Como suas mãos são macias; você está tremendo?!... e soltou uma risadinha tão sapeca, que pensei: pronto, agora eu morro mesmo! -E,mais uma vez... me desperto com o tom de voz áspero do balconista que, praticamente grita: Garota, vai querer o pão, ou não?! -Balancei a cabeça que sim, mas, eu mesma não estava ali... só conseguia ouvir a goteira que ficara mais insistente com a pergunta: Será que ele vai te beijar? Será, será, será...? E ia intercalando com uma afirmação: Você não sabe beijar, não sabe, não sabe...! 
-Eu não imaginava que a volta pra casa naquele dia, marcaria por toda a minha vida. 
-Durante o caminho, ele me olhou com doçura, e olhar brilhante, oferecendo sua mão. 
-Mais que depressa aceitei aquela mão forte, firme, linda, segurar a minha... 
-E voltamos como namoradinhos, nossas mãos coladas... a minha tremia, e transpirava... 
-Não falamos uma palavra, parecia que todos os sons se resumiam em nossas ofegantes respiração. 
-Quando faltava três casas da minha, ele me puxou pela mão, levando-me para debaixo de uma pequena cobertura de uma casa de gente rica ali do bairro; uma espécie de abrigo para facilitar a medição do relógio de energia da casa. 
-Eu não disse uma palavra, apenas confiava nele. Gentilmente, ele pegou o leite e os pães, colocando-os com cuidado em cima da caixa do relógio... 
-Acomodou-se naquela parede, puxou-me com doçura pra junto do seu corpo, levando as mãos em volta da minha cintura... 
-Foi o abraço mais gostoso e demorado que já recebi! -Ficamos ali, abraçados, sem palavras, apenas nossa respiração, nossos cheiros se misturando. 
-Ele acariciava meus cabelos, meu rosto, minha boca, como se estivesse desenhando cada traço... 
-Me olhava com um olhar penetrante; que lançava chamas, simplesmente consumindo-me... 
-Naquele momento, eu era uma floresta em chamas, e o fogo era avassalador... não poupava nada! -Meu coração já havia derretido... 
-E aquela goteira já não atormentava mais os pensamentos, estava lenta, quase escassa... -Meus lábios ardiam em brasas, sedentos, quase que clamavam pela água daqueles beijos, meu primeiro beijo. 
Ah! que saudades de um tempo que não volta mais...
E hoje é Setembro
E você, não está aqui
Se te reencontrasse
viveria tudo outra vez, só que com muito mais
intensidade.




Lene Soares

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Solitude, lucidez ...

Haviam muitos caminhos pra seguir...
poderíamos ter ido daqui pro mundo inteiro
sem rotas, sem protocolos , sem mandamentos
qual foi o impedimento de mergulharmos fundo?
 encontraria meu olhar dentro do teu 
juntos enxergaríamos no mais profundo escuro
teu suspiro teria descanso no meu
tua fome de olhar guloso saciado 
pela sede do meu olhar sedento
bastava-me um aceno, uma palavra
para que eu fosse contigo e tu viesses comigo
 viveríamos um no outro...
morada, pouso
repouso, gozo
comunhão...
s o l i t u d e
______________
_ mas...
sonhos e fantasias não criam asas
em vão seria nosso encanto 
olhares famintos e bocas secas 
clamam pela água compartilhada 
ficaram só as paredes
divisoras de vales dos medos
não passam de montanhas solitárias
pedras de palavras mudas
caminhos não percorridos
desejos e beijos dispersos ao vento
angústias sentidas no peito
são gritos no silêncio
clamor de um coração... 
l u c i d e z
______________
_  mas...
 o amor flui
é remo de barco
é água que corre
que escorre e preenche
feito cachoeira
é intuição acertada à paz
é gira mundo
movimento
o amor é pássaro livre
se for pra pousar
ele acha ninho
a n i n h a - s e
______________
_ mas...
se diferem os mundos no fuso
um gira e o outro estagna
é areia movediça 
atola os pés, paralisa
arrebenta a corda
ao invés de laços, nós enviesados
fios embaraçados...
água parada é poça d' água evaporando...
distintos, contrários, distantes
não há ninho
pouso de ilusões
é coração 
d e s a l i n h a do
______________
_ mas...
não era amor...
pois, nos ares incertos do teu relógio
a minha vida pulsa, pulsa, pulsa, pulsa
p u l s a...
Lene Soares

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cais do porto


Vou embora desta cidade
antes que seja tarde...
eu vou, e não volto  mais...
vou até o cais 
antes que anoiteça,
e eu me esqueça de como é o horizonte
eu vou ao porto com gosto 
vou sem hora, sem demora
aventurar-me em outros mares 
aqui não posso mais ficar
no ansiar por novos ares 
vou sem rumo, sem rota
sem medo de derrota
procurar a outra parte
que não é minha metade
e sim, complemento de mim...
não sei quanto tempo navegarei 
e nem onde encontrarei
se no começo, meio ou fim...
complemento de mim...
Lene Soares